Localização: Bairro de Ouro Preto. Data da construção: 1731. Autor do projeto: Sargento-mor Engenheiro Pedro Gomes Chaves. Proprietário: Arquidiocese de Mariana. Tombamento: Processo nº 75-T, Inscrição nº 246, Livro Belas-Artes, fls. 42. Data: 08.IX.1939. Finalidade atual: Culto religioso.
A construção da Igreja de Nossa Senhora do Pilar, Matriz do bairro de Ouro Preto, foi iniciativa de duas Irmandades associadas: a do Santíssimo Sacramento e a de Nossa Senhora do Pilar, fundadas no mesmo ano de 1729. Essas Irmandades, de homens brancos, eram ricas, e decidiram construir sua igreja quase ao mesmo tempo que a outra Matriz, a de Vila Rica da Conceição de Antônio Dias. A construção deve ter sido iniciada por volta de 1731, na base de um risco de autoria não comprovada, mas que o 2º Vereador de Mariana José Joaquim da Silva (Memória cit.) declarou ser do Sargento-mor Engenheiro Pedro Gomes Chaves. Sabemos com segurança, que lhe deu o projeto da capela-mor, por documento de 2 de agosto de 1741. A construção da igreja foi iniciada, conservando-se a capela-mor da primeira construção de taipa. Em janeiro de 1731, o Corpo Santo foi transferido para a capela próxima, de Nossa Senhora do Rosário. A obra deve ter-se adiantado bastante, pois em 1733 foi realizada a trasladação do Santíssimo Sacramento, que saiu da Capela do Rosário para a nova igreja. É possível que o corpo principal já estivesse talvez coberto, e a velha capela-mor continuasse a ser utilizada para a celebração do Santo Ofício. A procissão constituiu uma tal exibição de riqueza e prodigalidade, que marcou época, na Memória das Minas. Simão Ferreira Machado, a pedido dos irmãos pretos da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário, escreveu uma pitoresca descrição, muitas vezes citada. Entre outros esplendores - cavalos ajaezados de veludo, com arreios e estribos de prata, cavaleiros em trajes suntuosos, cabeleiras empoadas, plumas, veludos, cetins, bordados a ouro e prata, diamantes -, um dos fidalgos do séquito que conduzia o Santíssimo, suntuosamente vestido, trazia à mão, uma salva de ouro, a miniatura do Itacolomi, fundida e cinzelada em ouro maciço. A Matriz do Pilar, como hoje a vemos, foi realizada em várias etapas. Antônio Francisco Pombal, que muito provavelmente era irmão de Manuel Francisco Lisboa - mau grado a diferença de nome, -, foi o arrematante, por 12.000 cruzados, da obra da capela-mor, incluindo o forro, a cimalha, o pé direito, tudo "segundo o risco aprovado". Cinco anos mais tarde, em 1741, Pedro Gomes Chaves apresenta um novo risco, que ampliava a capela-mor, importando na perda de uma parte considerável já executada. Pombal arrematou essa modificação, que incluía indenização, além do aumento resultante das modificações. Ali trabalhou Pombal até 1744, quando se achou em má situação financeira e foi levado à falência. Conseguiu passar a obra do Pilar para Antônio dos Santos Portugal, encarregado de terminar as obras. Há um outro contrato, em 1745, aparentemente menos importante, mas pelo qual se deduz que a igreja seria elevada acima do nível atual: o mestre pedreiro José Pereira dos Santos, encarregado do conserto da escada da porta principal "que desce para a rua de baixo", e de uma outra, na porta travessa. Esse mestre executou trabalhos importantes em Mariana, inclusive o projeto da Casa de Câmara e Cadeia dessa cidade. Em 1759, um outro contrato com Pedro Corrêa Alves, foi feito para conserto das duas torres de madeira, que pertenciam provavelmente à primeira igreja. Finalmente, em 1825, com o Brasil já independente, a fachada apresentava sinais de ruína, além de outros reparos urgentes. Manuel Fernandes da Costa foi encarregado de administrar a obra grossa, que acabou sendo contratada com José Veloso do Carmo, que ali trabalhou de 1826 a 1828. Em 1847, voltou Fernandes da Costa, desta vez como executor do frontispício. Este foi concluído em 1848, junto com a torre da epístola, e a torre do evangelho ficou acabada em 1852. Por aí verifica-se como, até a metade do século XIX, permanecia vivaz ainda a tradição do rococó. Enquanto no Rio instalava-se o ensino acadêmico das artes, e florescia o neo-classicismo, Minas continuava ainda fiel à estética setecentista. A igreja ficava assim com partes da estrutura em alvenaria de pedra e outras em madeira e taipa. Mas é preciso considerar que o monumento contém em si próprio uma contradição: a nave não corresponde, como espaço interno, à massa externa. Esta é como uma caixa retangular, dentro da qual se desenvolve a estrutura de um vasto salão com a planta de um decágono construído em madeira, um vasto apainelado independente, como grande espaço dourado aberto em tribunas e guarnecido por altares e retábulos embutidos. Não se conhece os autores da talha das naves, pois estes eram dados por confrarias particulares. Por isto não constam da documentação da Irmandade do Santíssimo Sacramento, administradora da obra. Esses altares foram repintados e redourados em duas ocasiões: 1799 e 1827. Não há pois definição precisa quanto à obra original executada por Pombal. Quanto à capela-mor foi contratada com Francisco Xavier de Brito, mestre escultor e entalhador português, vindo do Rio de Janeiro, onde foi o executor de uma obra-prima: a talha da igreja da Ordem Terceira de São Francisco da Penitência, no morro de Santo Antônio, Brito trabalhou na igreja do Pilar entre 1746 e 1754, consequentemente em época na qual Antônio Francisco Pombal já estava praticamente afastado da obra. Ao fim dos trabalhos da capela-mor, por sua vez. Brito que tinha um sócio, Antônio Henrique Cardoso, veio a padecer, em 1751 "de moléstia de doença grande". A 29 de dezembro desse ano Francisco Xavier de Brito faleceu. Diversas questões surgiram, posteriormente, quanto a erros de construção na carpintaria do "zimbório" da capela-mor, ou melhor, as abóbadas ogivais (em cruzeiro de ogivas) que formam o forro da capela. Essas peças resistiram até 1770, quando tiveram de ser construídas na sua forma atual. Foi então Finalmente dourada. A igreja muito tem sofrido ultimamente tanto pela natureza do terreno como das intempéries. A parede do fundo desabou e teve de ser reconstruída há alguns anos. O corpo central é terminado pelo grande frontão, suportado por consolos e volutas que acompanha os planos chanfrados. Tem ao alto um pequeno óculo quadrilobado seguindo a perspectiva ascendente do outro maior. Ao fim um coroamento ondulado, terminado pela Cruz apoiada no Crescente, símbolo lunar de Maria.
Descrição
O frontispício da igreja, reconstruído no século XIX é, muito provavelmente, uma reconstrução, na qual foi conservado o espírito da fábrica primitiva. É um magnífico trabalho de alvenaria de pedra e de cantaria. Na grande portada, em verga curva, a porta almofadada é certamente a original. As ombreiras e a verga são molduradas; a cimalha em cantaria é igualmente moldurada e encimada por ornato linear em estuque, terminado por uma pequena cruz. Acima desse ornato vê-se o óculo envidraçado, de contorno barroco e movimentado, que se abriga sob a cornija, cuja curva quebra a continuidade linear. Ladeando a portada, duas possantes colunas jônicas, em cantaria do Itacolomi, apóiam-se em pedestais-consolos barrigudos, também de cantaria; o destaque das colunas motiva o deslocamento do entablamento. Desenvolvendo-se o plano da fachada, pode-se notar o chanfrado, no qual se contém as duas janelas tradicionais ao nível do coro, com balcões de ferro. A seguir, simetricamente, a fachada volta ao plano, paralelo ao avanço da portada e parte central do frontão. Mais duas janelas idênticas às primeiras citadas, dois cunhais com capitéis toscanos, entablamento e torres, de plano quadrado, cantos chanfrados pelas pilastras, entablamento e cúpula bulbosa, de alvenaria, cuja rotundidade é acusada por ornatos de massa, em voluta; as cúpulas são encimadas por fortes coruchéus. O conjunto de cantaria, de tom dourado, faz contraste com as superfícies caiadas: esplendor da pedra e o ascetismo da cal. Assim como o frade, celebrando o divino sacrifício, traz sob o esplendor da casula bordada a ouro, e da estola recamada de pedrarias o burel e o cilício da penitência, assim no barroco repontam, sob o esplendor das matérias, aqui e ali uma pouca de cal e de pedra, como a lembrar o Vanitas Vanitatum. Sempre presente ao espírito do tempo. Aberta a grande e pesada porta, penetremos na igreja. Com efeito, o interior é, no todo, discrepante do exterior. O barroco é rico nesses extraordinários caprichos. Toma-nos de surpresa, transporta-nos do severo ao lírico, do recolhimento ao delírio da paixão. Essas liberdades são o fruto dessa Kunstwille, essa "vontade de arte", que legitima todos os arroubos da imaginação. O homem quer fazer da Casa de Deus tudo aquilo que não ousa na sua própria morada. Ele a deseja grande, rica, deslumbrante, simbólica do Poder Divino. É o culto de Nossa Senhora, Maria, rainha dos Anjos, Mãe de Deus, Estrela da Manhã, Torre de Marfim, e tantos e tantos atributos poéticos e fervorosos d'Aquele que é a Intercessora, sempre trazendo a Misericórdia à mão de Deus, que distribui a Justiça. Compreendidas assim, nossas belas igrejas barrocas de Minas aparecem consagradas em todo seu esplendor, pela miséria e a esperança, próprias da condição humana. Melhor, então, do que descrever as minúcias do interior da igreja do Pilar, será transcrever um período do que sobre ele escreveu Lourival Gomes Batista. Desde o tapa-vento, o visitante é engolfado numa onda de ouro. A nave, escura e ampla, é toda ornada pelos seis fartos altares laterais e cercada de camarins em toda a volta. A capela-mor, ainda mais sóbria, é inteiramente dominada pelo altar do trono. Essas peças, talhadas no mais sincero barroco que se poderia esperar do lado de cá do oceano, não desprezaram as regras da boa escola de que nasceram e, se há, de toda evidência, maior desperdício de pormenores ornamentais, com largo predomínio de adornos florais denticulados que se dobram em torções freqüentes, os elementos componentes, sejam humanos ou vegetais ou arquitetônicos, ainda não se contaminaram de todo, em sua morfologia intrínseca, do ritmo do barroco nativo. Corpo e rosto de anjos são calmos e bem formados, as colunas salomônicas mostram-se ágeis e isentas daquelas adiposas roscas que noutras igrejas se vêem: tudo, enfim, parece mais regrado quando encarado em pormenor, destacado do conjunto. Não obstante, a igreja, no todo, parece mais afrontosamente rica, mais exuberante em sua vaidade, mais impositiva em sua autoridade arrogante. O milagre está no pigmento. Porque no Pilar tudo, mesmo aquilo que o óleo coloriu mais tarde, é coberto de ouro. Por fim, a Paróquia do Pilar reuniu peças de arte religiosa num pequeno museu. Vale conhecer as alfaias, prataria, objetos do culto, peças de grande qualidade.