Igreja de Santa Efigênia  | Localização: Bairro de Santa Efigênia, no alto da ladeira do Vira-saia. Data da construção: 19 Quartel do Século XVIII. Autor do projeto: * Proprietário: Arquidiocese de Mariana, administrada pela Irmandade de Nossa Senhora do Rosário. Tombamento: Processo nº 75-T, Inscrição nº 241, Livro Belas-Artes, fls. 42. Data: 08.IX. 1939. Finalidade atual: Culto religioso.
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Histórico
As irmandades do Rosário foram um dos refúgios dos negros escravos, que encontravam na religião uma ilusão de liberdade, ao mesmo tempo que um conforto para seus males e a esperança da vida eterna. Ao mesmo tempo, para os senhores constituiu um meio seguro de acalmar o escravo, tirando-lhe qualquer valeidade libertária, ao mesmo tempo que propondo a religião como alternativa pacificadora. Por isso assistimos à construção de capelas da Irmandade do Rosário dos Pretos simultaneamente com a ocupação do território pelos arraiais. Os brancos podiam frequentar as capelas dos pretos, mas tão cedo tivessem recursos, construíam sua própria igreja, à qual os negros não tinham acesso. Em Ouro Preto, há duas igrejas do Rosário, situadas nos dois grandes bairros: a de Antônio Dias e a de Ouro Preto. Assim como cada um tem sua igreja matriz, tem também sua igreja dos pretos. E ainda, para complicar a segregação, os mulatos ou mestiços - que não se consideravam negros e não conseguiam ser brancos -, refugiavam-se nas Irmandades das Mercês. A atual igreja de Nossa Senhora do Rosário, do Alto da Cruz do Padre Faria, também chamada de Santa Eugênia é a segunda, construída em pedra, no local onde existiu a primitiva capela de taipa dedicada a Santa Efigênia, princesa da Núbia e reuniu a Irmandade do Rosário dos Pretos da Freguesia de Antônio Dias, fundada em 1717 na matriz de Nossa Senhora da Conceição, da mesma Freguesia. Foi para ali levada pelo Padre Bernardo Madeira, grande devoto de Nossa Senhora. Na capela em questão os pretos permaneceram durante alguns anos, até que resolveram, em 1723, construir a igreja definitiva, em alvenaria de pedra e cantaria do Itacolomi. Esta é a igreja do famoso "Chico Rei", homem que na África era o soberano da sua tribo, e foi capturado por negreiros, com sua família e quase todo seu povo. Na travessia para o Brasil morreram sua mulher e quase todos os filhos, restando apenas um. Ao chegar a Minas, Francisco que era um homem forte e determinado, trabalhou duramente, e conseguiu amealhar um pecúlio, que lhe permitiu liberar o filho. Juntos trabalharam mais ainda, até que o pai pudesse tornar-se forro. Daí por diante foi mais fácil forrar um dos súditos, depois outro e mais outro, até que se reconstituísse um núcleo de negros livres com o que restou da antiga tribo. Com a corte formada, Chico voltou a ser o Rei, o filho Príncipe, a mulher deste a Princesa, e a segunda mulher foi a Rainha. Naquele tempo as minas de ouro eram ainda riquíssimas, e coube a Chico receber a data de uma, que se revelou de uma abundância fantástica: a mina da Encardideira. Outras haviam, na mesma área, riquíssimas como a do Ouro Podre, assim chamada porque ao desmontar um barranco a picão, rolou enorme quantidade de metal, em pó, em grãos em folhetos, em pepitas. Eram também opulentas as de Tassaras, do Veloso, de Saragoça, dos Camargos, do Padre Faria. Num local não identificado da mina de Chico-Rei, havia a Ponte da Encardideira e o Palácio Velho da Encardideira: existia ainda, com esse nome, uma velha casa de taipa, já com o revestimento descascado e por onde se via a "gaiola", ou seja, as peças da estrutura amarrado com couro de boi ao invés de taquara. O rei Chico restabeleceu danças e costumes africanos. Reviveu em Minas os dias gloriosos da sua terra. Costumava assistir anualmente na sua igreja, à missa cantada solene, após a qual, em companhia da Rainha, dos príncipes e toda a corte, saía em cortejo, pelo arraial, com cetro e coroa, todos vestidos com roupas vistosas e coloridas, acompanhado por cantos e instrumentos africanos. Havia também a lavagem da carapinha das negras, que após a missa eram lavadas nas pias de água benta da igreja com o pagamento de suas anuidades.
A esse ouro eram juntadas jóias: anéis, brincos, pulseiras, colares. Ao dia seguinte dessa festa do "Reinado", a Rainha costumava visitar os presos da Cadeia, aos quais levava presentes. Ia seguida por grande séquito, desde o Alto da Cruz. A música ia em frente, com os trombeteiros, os gaiteiros e os charameleiros. Para desafogo da enorme escravaria oprimida, a tradição dessas festas africanas, "Reinado" ou "Reisados", as "Congadas" fixou-se entre a população negra mineira, e permitiu-lhe transferir para os santos católicos o culto dos seus orixás primitivos, num sincretismo suspeitosamente tolerado, em tempos coloniais. Quanto à construção da igreja de Nossa Senhora do Rosário, a Irmandade devia ser economicamente poderosa, pois em 1733 pagou a Antônio Coelho da Fonseca, por obras de pedra da igreja, a quantia de 500$000, e no ano seguinte mais 850$000 "por conta da nova igreja que está obrigado a fazer de acordo com a escritura". Entre 1743 e 1744 diversos pagamentos foram feitos, sendo o mais importante a Antônio da Silva, "300 oitavas de feitio das grades, madeiras e assento". Em 1762 é feito um pagamento a Henrique Gomes, pedreiro "do conserto das torres", e João da Rocha, também pedreiro, recebeu 22 oitavas e 3/4 por trabalhos de cobertura. Ao que parece, a igreja deveria estar em vias de conclusão, e já com o frontispício em acabamento, pois é nesse mesmo ano que a Irmandade compra ao relojoeiro José da Costa Carneiro, o relógio da torre, por 290$000. Finalmente, em 1777 era feito aos pedreiros Domingos Moreira de Oliveira e Miguel da Costa Peixoto mais um pagamento de 400 oitavas de ouro, "das obras de pedra". A igreja tinha, com efeito, grandes obras de pedra a realizar, inclusive a enorme escadaria que lhe dá acesso, o pavimento do adro e muitos outros trabalhos. O mestre das obras reais Antônio Francisco Lisboa também trabalhou na igreja, entre 1743/44, "ajustando obras da capela", apontamento de portas, forros, grades, assentos, madeiras, junto com Antônio Silva. Receberam vários pagamentos, o maior de 300 oitavas. Ainda deve ter levado tempo para estar completamente terminada, pois a data gravada na cruz acima do frontão é 1785. DescriçãoA igreja de Santa Efigênia - chamêmo-la por seu nome popular - fica situada no topo de uma colina e acessível por ladeira íngreme. A sua situação é belíssima, abrange uma larga visão sobre a cidade, mas bastante afastada e na parte mais antiga do velho bairro do Padre Faria. Ao chegar ao alto da ladeira, há que subir 42 degraus de uma ampla escadaria de pedra em dois lances, fechada na base por uma grade e portão relativamente recentes. A igreja está situada sobre uma plataforma e tem um anexo, do lado esquerdo o portão do cemitério da Irmandade, obra que deve ser um acréscimo do século XIX. O frontispício é dividido em três corpos, sendo que o central é avançado e enquadrado por cunhais com capitéis jônicos. Os corpos laterais das torres são prismáticos, com os cantos arredondados, o que resulta numa solução curiosa: o canto curvo convexo é mantido no encostar do plano da torre com o do corpo central. O grande entablamento é de belo perfil e curvo no corpo central, abrigando o óculo trilobado, em sua concavidade. A portada principal em verga reta, com portal moldurado encimado por um frontão triangular partido e que faz corpo com um nicho em arco redondo e terminado por duas volutas e um concheado. O interior do nicho tem na parte superior um concheado; contém uma bela e delicada imagem de Nossa Senhora do Rosário. A composição portada-frontão-nicho-óculo é tumultuada, o que dá a impressão do nicho ter sido resolvido posteriormente ao risco inicial. Termina o corpo central um grande frontão, de curvas e contra-curvas, terminado por uma cruz finamente trabalhada em pedra. As torres prolongam-se acima do entablamento, com sineiras e sinos e terminada por cúpulas baixas e altos coruchéus. Cercada por um vasto panorama, Santa Efigênia é vista de longe, uma pequena jóia branca dentro do quadro dramático de Ouro Preto. Interiormente o coro, acima da entrada, apóia-se num arco de madeira, moldurado, ao centro do qual há um tapa-vento de boa marcenaria. A nave é ampla, coroada por grande entablamento o qual, na parede do arco-cruzeiro, incurva-se por cima do arco. Este é moldurado, apoiado sobre pilastras com capitéis compósitos. Há quatro altares e retábulos entalhados, na nave, cujo forro de tábuas tem a forma de asa de cesto. Os altares que ladeiam o arco-cruzeiro são ricos, movimentados, de um barroco opulento, com motivos florais, consolos, concheados, duas colunas torsas suportando o coroamento acima do qual há uma tarja trabalhada e coroa, ladeados por dois anjos. Os outros dois inscrevem-se num retângulo externo, com cimalha, grande tarja e coroa; encontram-se figuras de anjos de tamanhos diversos; abaixo da cimalha, o grande arco principal cercado de ornamentação abriga o nicho, estreitando-o com a abundância ornamental: colunas torsas, decoração floral; são esses altares de época anterior aos outros dois. Diogo de Vasconcellos, descreve o altar-mor da igreja divergindo de todos na cidade, "por não estar ornado de colunas, nem de aves, senão de volutas e flores estilizadas, em lugar daqueles tendo pilastras". Nas paredes laterais da capela-mor há dois quadros de assunto religioso, com molduras de talha rica. Os púlpitos de moldura entalhada do corpo da igreja, são em forma de urna.
Semelhantes aos que se encontram na Capela do Rosário do Padre Faria, assentados em bacias de cantaria esculpida. Pela capela-mor tem-se acesso a dois corredores laterais, que conduzem à sacristia. Nesta existe uma grande cômoda, com magníficas ferragens. A igreja possui boas imagens antigas, algumas representando santos pretos: Santa Efigênia, São Benedito, e outros, bem como a imagem primitiva de Nossa Senhora do Rosário. Existem ainda boas alfaias e prataria antiga. Fonte: Guia dos Bens Tombados - Minas Gerais. 1984 Digitalizado por: webcamTurismo.com
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